Para a criança que eu fui,
hoje eu quero escrever para você parada na porta de uma sala, grande ou pequena, mas cheia de gente que já se conhecia.
Talvez fosse o primeiro dia numa escola nova, uma festa em que você conhecia quase ninguém, ou uma tarde na pracinha, dessas em que um adulto encostava a mão nas suas costas e dizia: "vai, faz amizade", como se bastasse chegar perto de outras crianças para que elas se tornassem, de repente, seus amigos.
E você foi.
Não porque o medo, a vergonha ou a insegurança tinham ido embora. Você estava com o medo inteiro junto, segurando ele com as duas mãos por dentro, e mesmo assim deu o passo.
Ninguém te chamou de corajosa naquele dia.
Coragem, para o mundo dos adultos, costuma ser alguma coisa grande: subir num palco, dizer não para quem manda, salvar alguém. Quase ninguém repara que atravessar uma sala cheia, quando se tem seis anos e o coração na boca, é feito exatamente da mesma matéria.
Na infância, a coragem quase nunca tem cara de coragem. Muitas vezes, tem cara de obrigação.
E talvez tenha sido assim em tantas outras vezes, sem que ninguém por perto dissesse que aquilo também era difícil. Na primeira noite dormindo fora de casa, quando você tentou parecer tranquila mesmo sentindo falta do seu travesseiro; na vacina que você sabia que ia doer, mas para a qual estendeu o braço mesmo assim; na pergunta feita diante da turma inteira, com o risco de virar motivo de riso; ou nas despedidas de uma casa, de um amigo, de um cachorro, quando esperaram que você não fizesse "drama" e você engoliu tudo do seu jeitinho.
Você achava que estava só fazendo o que tinha que ser feito.
Eu olho para trás agora e vejo outra coisa. Vejo uma criança pequena praticando, calada, uma coragem que ninguém nomeou, talvez nem você.
Então deixa eu nomear, com atraso:
você foi corajosa, você foi corajoso.
Muitas vezes.
Inclusive nas vezes em que ninguém viu.
Principalmente nessas.

